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Cinecasulofilia

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sexta-feira, dezembro 12, 2014

sobre RESIDÊNCIA

Ontem (11/12/14) houve a abertura de RESIDÊNCIA, projeto que desenvolvi no Laboratório de Artes Visuais do Porto Iracema, em que prossigo o tema de me filmar em casa, mas agora no campo das artes visuais. No dia anterior (10/12), houve uma fala minha e de minha tutora sobre a natureza do projeto e sobre o processo de realização. Optei por fazer a seguinte fala, entrecruzando leitura de texto e exibição de trechos de alguns filmes. Depois disso, achei interessante postá-la por aqui...  


* * *


(Nos encontros com minha tutora Ana Maria Maia, ela sempre me perguntava sobre as origens do projeto. "O que te move? Sobre o que se trata esse projeto?" Eu tentava mas nunca conseguia responder muito bem. Na verdade, eu não sabia muito bem. Eu parti para realizar esse projeto exatamente para poder descobrir, para tentar entender para mim mesmo o que ele de fato é. Em cada encontro, Ana repetia essas mesmas perguntas de base, e eu, atabalhadoadamente, tentava responder e fracassava. Agora, na véspera da abertura da instalação, eu preparei um texto para tentar responder a Ana essas perguntas. É o que penso hoje, neste momento. Não sei se conseguirei respondê-la. Provavelmente fracassarei mais uma vez, mas é uma tentativa que me gerou grande esforço. Eis então:)  


1)  
leitura de texto de minha autoria por sobre imagens de
FILM, de Samuel Beckett
https://www.youtube.com/watch?v=aZtV-iHeQd0
trecho entre 8´29´´ - 10´52´´

Des
aparição. Desaparecimento.
Gostaria de desaparecer. Preciso desaparecer.
Ao mesmo tempo, é preciso divulgar, promover, publicizar o desaparecimento.
1, 2, 3, 4, 5, no maior número possível de telas.
Quero preencher todos os cantos do mundo com meu vazio e com minha solidão.
Então, eis-me aqui. Mais uma vez. Pela primeira vez. "Já visto, jamais visto."
Ofereço-me então. É pouco. É o que me resta.

Mais uma vez, a casa.
Menos como retiro ou porto seguro, mas como mais um lugar a ser ocupado e desbravado no mundo.

Ver. Rever. Ver mais uma vez. Ver pela primeira vez.
Como uma criança, que olha por baixo das saias das mulheres sentadas à mesa de jantar, não como ato subversivo, mas por mera curiosidade.
Curiosidade. Ingenuidade. Ingenuidade.
Se há projeto, é o do fracasso. Quero fracassar. Preciso "fracassar melhor".

Meu corpo não cabe em mim. Esse meu desajeitamento de mim.

Meus filmes - tudo são filmes - são um pedido de socorro.
Um gesto, um ato de desespero.
Expor-me. Sair da luz e expor-me à sombra. O avesso da revelação, do processo do negativo fílmico. Um pouco mais e cada vez menos. Colocar-me em risco. Tremor e encanto.

Ver pela primeira vez. Ver pela última vez.
Meus filmes são um cântico de despedida. Uma garrafa jogada ao mar.
Quero dizer adeus a mim mesmo, a algo que nem cheguei a ser.
Adeus.

Quero que meu próximo filme seja num des
erto.
 
2) exibição de
PREMIERS PAS DE BEBE, dos Irmãos Lumiere
https://www.youtube.com/watch?v=fA50X6_b2kY  

Ao final da exibição, leitura do texto por sobre as imagens de
REPAS DE BEBE, dos Irmãos Lumiere
https://www.youtube.com/watch?v=i8Yi4du489w

"Cada plano isolado vale por um filme, é um filme. Foi assim que a história do cinema começou. Lumière: O almoço do bebê é uma cena simples, a mulher e a criança; por trás, as folhas das árvores se movem. Existe um equilíbrio entre os galhos que se movem e a historinha em primeiro plano. Este equilíbrio é o melhor de tudo. Cada parte da imagem vive, independentemente, e isto é bom de ver. A indústria do cinema procura exatamente eliminar este equilíbrio. Se você elimina a historinha contada num filme convencional, as imagens se tornam absurdas, sem vida. Se você elimina a historinha de qualquer de meus filmes, ou a historinha contada num filme de Dovjenko, ou nos filmes de vários outros como nós, restará sempre um jardim de imagens. E, tal como num jardim as imagens não precisam formar um conceito claro. Você nem precisa entendê-las, basta fazer o que se faz num jardim: caminhar, caminhar entre elas" ALEXANDER KLUGE  


3) 
(leitura do poema abaixo por sobre imagens de
LONESOME, Paul Fejos
https://www.youtube.com/watch?v=gzeCUrMxAf4
trecho entre 2´01´´ - 4´48´´
(sem audio)

Discurso de um fulano de tal sobre seu bairro
(Abraham Shlonsky)

O prédio onde vivo tem cinco andares.
E todas as suas janelas bocejam, replicando, para as janelas em frente,
como os rostos dos que se olham no espelho.

Setenta linhas de ônibus há em minha cidade,
legalizados, cheirando a corpos.
Viajam
viajam
viajam ao coração da cidade,
como se não fosse possível morrer de tédio
aqui mesmo, no bairro.

Meu bairro é bem pequeno,
mas nele ocorrem todo tipo de nascimentos e mortes
e tudo o que pode se passar entre nascimento e morte também há por aqui,
enfim, ele tem tudo o que qualquer grande metrópole possui.

Tem até crianças que brincam com esses pratinhos voadores maravilhosamente,
e três salas de cinema.
Se não me fosse bastante o tédio de minha própria casa,
certamente eu iria a uma delas.

O prédio onde vivo tem cinco andares.
Para a garota que saltou pela janela em frente
bastaram três.
 
após a exibição do trecho de LONESOME, 
exibição de trecho de
JEANNE DIELMAN, Chantal Akerman
https://www.youtube.com/watch?v=5C5Az-239uM
trecho na íntegra  


4) 
exibição de trechos dos seguintes filmes (sem leitura de texto)

THE BOAT, Buster Keaton
https://www.youtube.com/watch?v=ZyToeE5Lh9s
trecho entre 12´05´´ - 13´29´´
(sem audio)

VAI E VEM, João Cesar Monteiro
https://www.youtube.com/watch?v=f_4wFPMJ67I
trecho entre 15´10´´ - 18´48´´