.comment-link {margin-left:.6em;}

Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

quinta-feira, janeiro 15, 2015



CÃES ERRANTES


Num momento em que não são raros aqueles que categoricamente decretam o anacronismo do "cinema de rarefação", CÃES ERRANTES, de Tsai Ming-Liang, vem comprovar a coerência do seu processo cinematográfico tão singular. Acredito que esse filme e seu próximo - XI YOU (JORNADA AO ORIENTE) - devem ser vistos conjuntamente. Nem tanto pela presença marcante de Lee Kang-sheng, tradicional colaborador de Tsai, mas por como os dois filmes oferecem possibilidades para o tão falado "cinema de rarefação". Como um primeiro passo para aproximar os filmes, talvez nos seja útil uma frase de Tsai no release de CÃES ERRANTES ("estou cansado do cinema"). Ora, de que cinema Tsai está falando? Me parece que seu desabafo incide sobre as chamadas convenções do cinema contemporâneo, e que ele busca aprofundar o seu processo artístico caminhando, ainda que (ou melhor dizendo, especialmente) lentamente. Os dois filmes são políticos porque falam diretamente sobre formas de viver e ocupar as cidades, ou ainda, são sobre como as arquiteturas (des)humanas da cidade colidem com uma forma de ser. Mas se essas pessoas constrastam com o frenesi da cidade, elas buscam uma forma de resistir que não entra em confrontamento com a lógica do poder, mas uma forma de equilíbrio possível diante de si mesmas.

Para isso, é preciso ir ao mundo, é preciso se posicionar diante dele. Mas num mundo dominado pelos extremismos, pelos ataques terroristas, e pela violência como resposta à violência, pela agressão como forma de comportamento, Tsai reage de forma zen. Para isso, é preciso não apenas ir ao mundo, mas saber observar, saber se colocar diante dele. XI YOU é um filme sobre a possibilidade de um corpo ocupar um lugar no espaço e se mover, essa expressão que adquire um sentido ontológico num mundo em que os deslocamentos passam a ser tão corriqueiros quanto a velocidade dos fluxos financeiros e do tráfego dos terabytes das fibras óticas da internet. E para que possamos nos mover, é preciso tempo.

CÃES ERRANTES poderia ser um filme político convencional por como o realizador aborda com delicadeza e sensibilidade a condição desses párias que definham em um subemprego, ocupando moradias clandestinas, lutando pela sobrevivência e pela comida da próxima refeição, quase como animais, cães que sequer ladram. Mas sua força não vem apenas daí, mas da forma como o realizador encena seu olhar sobre o mundo, ou ainda, de como ele se posiciona diante do que se passa. Ou seja, a ética do cinema de Tsai - ou ainda, seu cansaço diante do cinema - está em como suas obras abordam o espaço e o tempo. São trabalhos de arquitetura sobre a arquitetura.

Mas assim também o era em um filme como GOODBYE DRAGON INN, um cinema de contemplação, sobre o espaço e o tempo de um locus que caminha para a desintegração e o abandono. Mas agora a ênfase não é nos jogos de representação, não há espelhos, tudo é mais direto. Há uma depuração da rarefação, uma condensação de energia combinada à brutalidade de uma atmosfera que explode em situações. Ou, de outra forma, um drama humano. Os cães de Tsai não compõem meros jogos formais, eles são violentos mas precisam de afeto. CÃES ERRANTES é um filme sobre a necessidade da solidão e a impossibilidade de vivermos sós. Ou se quisermos usar mais uma palavrinha que querem converter em clichê - em .... AFETO.

Colocando de outra forma: é preciso tempo, pois o tempo faz decantar para dentro dos personagens sua condição. Mas só temos acesso às suas reações físicas, ou ainda, como eles reagem para fora, em como eles ocupam um espaço e se movem.

É possível afirmar que a obra de Tsai vem se aproximando das artes visuais, mas esse não é o ponto. Tsai reflete sobre o estado do mundo hoje articulando seu projeto com um exame profundo sobre as possibilidades da mise-en-scene na dramaturgia contemporânea. O espaço como dramaturgia, a importância das pequenas ações, o hibridismo do documentário, a presença dos corpos no espaço... todas essas investigações são agora combinadas com um cinema profundamente humano, que não meramente vitimiza ou exotiza seus personagens. O espaço e o tempo permanecem as ferramentas essenciais do cineasta, desde que não virem fetiches para meros jogos formais. Mas para isso, é preciso ,acima de tudo, se posicionar, ou seja, é preciso sempre um corpo no espaço. Um corpo cuja presença/ausência o leva a se mover.