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Cinecasulofilia

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terça-feira, fevereiro 03, 2015

NOTAS DE TIRADENTES 2015 (I)






O ANIMAL SONHADO, de Breno Baptista, Luciana Vieira, Rodrigo Fernandes, Samuel Brasileiro, Ticiana Augusto Lima, Victor Costa Lopes .

O ANIMAL SONHADO foi o filme de abertura da Mostra Aurora. É mais um exemplo da vitalidade da cena audiovisual de Fortaleza: um filme jovem realizado por alunos do curso de cinema e audiovisual da UFC, ou seja, uma geração após o movimento da primeira turma do curso de realização da Vila das Artes e do Alumbramento (na sua formação coletivo). O ANIMAL SONHADO é herdeiro dessa recente linhagem do cinema da cidade: um filme colaborativo, realizado sem recursos públicos, dirigido por seis realizadores. É um filme de episódios. No entanto, o filme foge do modelo padrão dos filmes de episódios: ainda que cada episódio tenha sido concebido e dirigido por um dos realizadores, o filme possui uma clara unidade, fruto das intensas conversas entre os seis realizadores e por uma equipe técnica comum. O ponto de partida do filme surgiu exatamente do desejo dos realizadores em estarem juntos, em criarem juntos, e essa interação entre a equipe, esse espírito colaborativo, nitidamente ecoa no filme. O elemento central que une os seis episódios é o sexo. O filme é composto de "contos eróticos". Mas existe um diálogo entre os episódios que vai para além do tema, que se ampara numa visão conjunta não apenas da mise en scene mas de mundo. Isto porque o filme busca uma representação do campo do desejo através do sexo, ou seja, os corpos é que falam no filme. É um filme sobre corpos em ação. Os personagens são definidos por seu movimento no quadro, muito mais do que por suas motivações psicológicas ou mesmo por uma dramaturgia narrativa. Proponho - talvez num certo delírio - que O ANIMAL SONHADO seja um western. Um faroeste como os de Budd Boetticher, em que tudo o que está em jogo é mostrar personagens que observam (que olham) e são observados, que precisam ocupar um espaço, e diante disso, precisam tomar decisões. (Há inclusive uma das cenas em que uma das personagens entra num bar é olhada como uma forasteira como se entrasse num saloon). Ou seja, eles precisam fazer opções, eles precisam agir, e as ações só podem ser expressas através do corpo, e não da psicologia. Ou ainda, o que está em jogo nas cenas é como o desejo consegue se exprimir através do corpo, através dos seus deslocamentos, ou de suas ações. Falando de outra forma, se um sentimento pode ser contido no corpo, ou ainda, se o corpo pode dar conta de exprimir o desejo, e até quando (ou onde) isso explode em ação. Assim, fico pensando que, ainda que seja um filme notadamente materialista, O ANIMAL SONHADO, à moda do cinema de um Pialat ou de um Brisseau (vide o "prólogo-teaser" com Soledad Brandão que infelizmente foi cortado do filme - uma homenagem a Coisas Secretas), é um filme moral - não no sentido de propor categoricamente um modo de ser para os personagens, mas, ao contrário, por buscar, a partir de uma reflexão sobre as possibilidades do corpo de expressar o desejo, uma opção moral (ética) desses corpos de agirem ou não, de ocuparem um espaço e se moverem.

O ANIMAL SONHADO também dialoga com o grotesco, as perversões e sua relação com o sublime, lembrando, até mesmo por sua estrutura fragmentária e provocativa, alguns dos filmes de Pasolini, como As 1001 noites ou Decameron - como se vê pela opção pelo corte seco diluindo os limites entre as transições dos episódios. Se resquícios de Sade ou Bocaccio podem ser vistos no filme, por outro lado, o filme não aprofunda ou vai mais a fundo nessa investigação. Parece um Pasolini light, talvez um pouco receoso de mergulhar a fundo nas perversões ou nos traumas desses personagens. Um dos realizadores, durante o debate, aceitou a autocrítica: o filme é apenas um primeiro passo (uma primeira descoberta) na investigação das possibilidades da representação do sexo no cinema, em que os jovens diretores tiveram que lidar com seus próprios tabus e pudores durante o processo do filme. Talvez eles o tenham feito com um pouco de cautela demais, o que talvez possa ser extrapolado para uma própria relação da juventude com o sexo nos nossos dias. Para filmes sobre corpos em ação, talvez o filme seja tímido demais. Ou seja, O ANIMAL SONHADO não é CORPORNÔ (Fauller - Cia Dita), a espetacular peça erótica explícita que ficou alguns meses em cartaz em Fortaleza. Ainda assim, a frontalidade, a segurança na decupagem, e seu certo rigor garantem o equilíbrio desse filme, que se coloca de uma forma curiosa entre o cinema contemporâneo e o cinema clássico. É um filme que poderia ter um diálogo efetivo com uma faixa de um público jovem, caso houvesse de fato um mercado de cinema no país para além dos blockbusters enlatados.

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