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Cinecasulofilia

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terça-feira, fevereiro 03, 2015

NOTAS DE TIRADENTES 2015 (V)




SOBRE O MÉTODO DESSA COBERTURA (OU COMO BUSCO ME APROXIMAR DAS COISAS)

Na correria tresloucada que é o ritmo de uma mostra de cinema como Tiradentes, em que se vê três ou quatro sessões de filmes por dia, é difícil conseguir um tempo de respiração para absorver muitos dos filmes. Em nossas (poucas) horas de sono, imagens, sons desses filmes se misturam em nossa cabeça, potencializados pelas conversas, encontros e outros energéticos. Algo entre o vento cortante e a brisa suave, entre o calor da manhã e o frio da noite, entre o sol e a chuva, entre o som típico da paisagem do interior mineiro e a britadeira da obra na pousada, entre os novos amigos e os recentes desafetos. Diante de tudo isso, ou ainda, entre esses tempos e espaços, nesses intervalos, volto a esse desafio, que é o de transformar essa multidão em palavras, ou ainda, um novo encontro: com a folha de papel em branco. Toda a minha dor e todo o meu desejo, todo o cansaço e toda a insônia, todo meu desencanto e toda a minha esperança se colocam aqui, de forma frágil e incompleta, viva e pulsante. O possível. É isso o que procuro encontrar nos filmes não para me salvar mas talvez para que consiga caminhar adiante.



 
Diante desse método, o filme que mais me estimulou em toda a mostra foi CORAÇÕES SANGRANTES, de Jorge Polo. Devemos ter cuidado com a beleza - o que é a beleza? não sei dizer. CORAÇÕES SANGRANTES (e não "sangrentos") é o mais belo filme da mostra não exatamente porque suas imagens exalam a beleza plástica fotográfica-fotogênica de um certo padrão do "cinema de arte". Sua beleza vem da forma como o diretor se atirou num abismo ao realizar esse filme. Seu projeto de juventude não surge por conta meramente da idade dos personagens ou porque "passam por uma travessia em que enfrentam desafios e amadurecem". Sua juventude é porque não há passado nem projeto de futuro, há apenas o presente. Porque é um filme de personagens que não querem amadurecer. Sua juventude está em como reúne diversos elementos do chamado cinema jovem contemporâneo para deslocá-los para outro lugar, para fazê-los caminhar, e não para simplesmente repeti-los ou diluí-los. É um filme de afetos, de encontros (um filme que entrecruza as relações entre cinema e vida, entre representar e viver, de personagens frágeis que se fortalecem por estarem juntos, um filme de encontros) mas ao mesmo tempo um filme político (um filme sobre um modo de viver no Rio de Janeiro, sobre a ocupação de um casarão no Centro da Cidade). Um filme ingênuo - a ingenuidade como subversão do bom gosto. Um filme inesperado, repleto de paixão e pulsão, mas ao mesmo tempo com uma certa melancolia, com algo que falta. É essa oscilação entre a alegria da brincadeira ingênua e a consciência da fugacidade e do desencanto que tornam esse curta de Polo tão singular. Ou, como prefiro, tão jovem. Essa pulsão e esse mal estar. Algo que me lembra de passagem um cruzamento entre o primeiro cinema de Jarmusch e alguns dos filmes do nosso cinema marginal. A radicalidade e a sinceridade com que o diretor se arremessa nesse abismo são absolutamente comoventes para quem consegue entrar nesse casarão.



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