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Cinecasulofilia

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terça-feira, fevereiro 10, 2015

NOTAS DE TIRADENTES 2015 (VI) - CURTAS MOSTRA FOCO




CURTAS - MOSTRA FOCO

Entre seus 12 curtas, a Mostra Foco contou com dois curtas já exibidos e premiados em outros festivais de cinema no país, de realizadores já conhecidos no formato (podemos dizer que se tratam de "veteranos" no curta-metragem...).

A ERA DE OURO é uma parceria entre o paulista Miguel Antunes Ramos (um dos diretores do curta E, premiado em 2014 na mesma Foco) e o cearense Leonardo Mouramateus (diretor de vários curtas premiados, como Lição de Esqui e O Completo Estranho). Isso já é interessante, pois o próprio curta trata de um (re)encontro entre São Paulo e Ceará, ou ainda, o curta analisa as distâncias entre as duas cidades, mas sem uma perspectiva política tradicional, mas em como essa distância tão conhecida entre Nordeste e Sudeste pode ser examinada através de modos de ser. No curta, um cearense viaja para São Paulo e aproveita para reencontrar uma antiga amiga, também cearense, mas que mora na cidade há um bom tempo. Ambos trabalhavam juntos numa peça mas agora ela trabalha em uma grande empresa. O choque então não é apenas geográfico, mas uma distância temporal, uma distância das escolhas pessoais, dos rumos da vida, em "o que fazer". O curta irá fazer uma crítica indireta ao sufocante modo de vida paulistano, à desumanização das relações de trabalho. Mas, à medida que o curta avança, percebemos uma outra dobra, mais complexa: acima de tudo  A ERA DE OURO é sobre a representação, sobre a (terrível) necessidade de que muitas vezes precisamos representar os papeis de nós mesmos para sobreviver à selva do mundo. Ou seja, para falar de "modos de ser" é preciso necessariamente falar em "modos de representar". As sombras entre "cinema e vida", tão caras ao cinema contemporâneo, ganham nova roupagem, refletindo uma estratégia política pelo lado avesso, não em aproximar o cinema da vida, mas a vida da representação, ou seja, por como a vida se tornou quase como um jogo de representações, mas sem a pureza de um espetáculo teatral. Nesse jogo de espelhos, resta a fragilidade dos personagens, até que uma ação inesperada quebra esse espelho. E talvez não tenha nada atrás dele! Talvez apenas percebamos que representamos mal um papel pequeno numa peça barata - oh a vida! O que me lembra de uma frase de Jean-Pierre Jeunet: "após fazer publicidade, percebi que, se sofremos quando fazemos um filme de que gostamos e as pessoas não gostam, sofremos muito mais quando fazemos um filme de que não gostamos e as pessoas gostam. Percebi então que o único caminho do cinema é a sinceridade". A ERA DE OUTRO é exatamente sobre isso, sobre "fazer cinema" ou "fazer publicidade", é sobre escolhas.

ESTÁTUA, de Gabriela Amaral Almeida, prossegue a pesquisa audiovisual realizada em seus curtas anteriores (UMA PRIMAVERA, A MÃO QUE AFAGA, ...) e que também revela sua proximidade com o grupo do "Filmes do Caixote". Seus curtas são sobre pessoas comuns que inesperadamente se veem em situações extraordinárias. O tempo comum do cotidiano vai assumindo um gradual estranhamento, dialogando claramente com os limites do cinema de gênero. Assim, se o cinema contemporâneo trata o comum, a rotina, a família e o cotidiano nas bordas do filme documental, indiretamente influenciado pelo neorrealismo italiano, aqui o enfoque é quase que radicalmente diverso. Em comum, pensamos em diversos dos trabalhos do Filmes do Caixote, em especial os curtas e longas de Juliana Rojas, Marco Dutra e Caetano Gotardo, vários dos quais a própria Gabriela participou como colaboradora. ESTÁTUA prossegue essa linhagem, aparentemente enunciando-se como uma simples história de uma babá grávida que toma conta de uma menina de cerca de 10 anos, quando sua mãe viaja. Esse filme de mulheres sobre mulheres vai gradualmente deixando o campo do comum e embarcando no campo do fantástico (termo mais apropriado do que "terror" ou "suspense"). A habilidade com que a diretora cria climas e situações, com um curta todo passado dentro de uma casa, é notável. As dobras entre a comédia, o drama e o "suspense" têm variações fluidas, leves e orgânicas, garantindo o equilíbrio do resultado final, entre roteiro, atuação e direção (mise en scene).

Nos demais curtas, o resultado é irregular, alguns funcionando mais, outros menos. Temos o divertido e metalinguístico  OUTUBRO ACABOU, de Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes, que mostra as aventuras de um menino que quer se tornar um cineasta. Detalhe que o menino é o próprio filho do casal de realizadores e os pais (que só vemos pelas pernas, quase como um recurso de desenho animado) são os próprios diretores (obs.: eu os reconheci pelas vozes, e não pelos pés!....rs). Um curta talvez um tanto romântico e idealizado demais, corroborando com uma visão muito romântica do papel do artista. Mas, ao colocá-lo como uma criança, Akerman e Lopes fazem uma doce autocrítica, ao mesmo tempo ironizando os delírios do cineasta-autor mas ao mesmo tempo louvando a pureza e a inocência dos seus princípios. Talvez todo genuíno cineasta seja uma criança. É essa aposta consciente na ingenuidade que confere ao curta a sua beleza.

Continuando com crianças..... divertido, doce e ingênuo mas bem cinematográfico também é VIRGINDADE, de Chico Lacerda, que relata as primeiras experiências sexuais de um pré-adolescente, mas na verdade narrados pelo próprio diretor, já adulto. É um filme sobre crianças feito por e para ser visto por adultos. É sobre essa distância que o filme se baseia. Para isso, é curiosa a aposta do diretor na narração (não vemos as cenas, só ouvimos sua descrição e imaginamos como teriam sido) enquanto a imagem mostra planos gerais dos lugares em que a ação se passou mas nos dias de hoje (da narração), muitos deles desfigurados (por exemplo, um cinema que virou uma loja, etc.). Um curta inventivo, ao cruzar esse gosto pela narração com o papel do tempo e das transformações da própria cidade. Cruza então documentário, ficção e experimental de forma criativa, abordando ainda o tema da iniciação sexual de uma criança que se descobre gay, de forma frontal e objetiva mas sem querer chocar, com uma certa leveza e ingenuidade. Mais um exemplo de uma série de curtas criativos feitos pelo coletivo Surto e Deslumbramento, de Recife.

Continuando com as descobertas sexuais....NO DIA EM QUE LEMBREI DA VIAGEM A BICUDA, de Vitor Medeiros, fala de um (des)encontro entre um casal de adolescentes que passa um final de semana sozinhos numa casa de campo. O curta já começa com um clima de estranhamento, baseado num grande plano geral e numa narração de voz branca, desdramatizada. Até que surgem os dois principais planos do filme (bastante longos), quando o casal transa. Toda a dificuldade do contato está ali numa dramaturgia do corpo, sem palavras, sem diálogos. A necessidade do outro, o estranhamento, a dificuldade, tornam a cena quase uma luta. A forma como os corpos procuram e evitam um ao outro, a dificuldade de os corpos "se encaixarem" expressa de forma incrível os desafios da dramaturgia desse curta. Seria ainda melhor se o diretor não precisasse citar tão explicitamente o cinema de Hong Sang-Soo, especialmente com o uso das zooms, recurso tão característico desse diretor sul-coreano.

Por fim, destaco o que considerei ser a maior surpresa positiva dos curtas da Mostra Foco. É brilhante o clima de cinema que a diretora Nathália Tereza consegue imprimir em A OUTRA MARGEM, utilizando um certo minimalismo, ou ainda, como recursos considerados básicos da linguagem do cinema ganham máximo efeito expressivo, com o uso do tempo, do olhar, do percurso...

Há alguns poucos diretores que são mestres na abordagem do universo feminino, como Bergman, Antonioni ou o nosso Carlão, mas é raro ver o contrário: cineastas mulheres abordando o universo masculino. Geralmente as mulheres buscam protagonistas femininas, em busca de um "ponto de vista feminino". Em A OUTRA MARGEM, a diretora Nathália Tereza aborda o universo masculino, um homem à noite à procura de alguém. O curta inteiro é um passeio de carro pelas ruas da cidade à procura de uma diversão, talvez algo para entreter o tédio, uma companhia, um amor, não sabemos ao certo muito bem. Não estamos então muito longe da atmosfera do cinema de um Kiarostami, por exemplo. O carro, a estrada e esse homem. A OUTRA MARGEM, no entanto, não é um filme psicológico: quase à maneira de um TWO-LANE BLACKTOP, temos o percurso e a estrada em planos bastante longos. E a noite. Há, ainda, um tom de melancolia que preenche toda a cena, uma solidão. Fico imaginando - provavelmente puro delírio meu - que essa menina que ele encontra seja mero fruto de sua imaginação. Com uma estrutura circular, estamos diante de um homem que busca, mas ele permanece opaco: temos apenas a estrada, o percurso, o carro. Tudo o mais se passa na cabeça do espectador, que sente sua solidão, que, ao final desse percurso que nunca acaba, parece ser a sua própria. Não há psicologia para definir o curso das ações: as ações, elas falam por si mesmas (no cinema, o que temos são as ações, os pequenos gestos, não conseguimos ter acesso ao interior, esse é o bom cinema moderno!) O uso da música - som diegético mas cuja função poderia bem ser extradiegética -, esse recurso tão perigoso, é também um capítulo à parte.

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