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Cinecasulofilia

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quinta-feira, setembro 24, 2015

CASA GRANDE






O mesmo acontece com CASA GRANDE. Quando o diretor se concentra na história de um garoto que busca amadurecer, o filme cresce; mas quando o diretor busca fazer um retrato das classes sociais do país, o filme se complica. Os dilemas do garoto têm vida, o filme tem dramaturgia longe de ser rala. Mas há um clima de comédia farsesca da família decadente de classe alta que entra em conflito com o tom humano do drama de tomada-de-consciência do menino. O tom de farsa é exagerado e algumas vezes foge do ponto, como nas cenas do telefonema do sequestro e do churrasco, e se torna um tanto caricato. A aversão de Fellipe Barbosa diante de sua própria família é espantosa: o garoto não se reconhece, quer fugir dali. Nisso, CASA GRANDE é mais próximo de O SOM AO REDOR: ambos os filmes buscam fazer uma radiografia das desigualdades de um Brasil urbano. Se a chamada segunda fase do cinema novo filmava a crise do intelectual em fazer a revolução, surge um cinema brasileiro contemporâneo da geração dos "filhos dos burgueses", que se envergonham de sua condição, rejeitam a herança dos pais, mas se sentem impotentes para transformar a ordem das coisas. CASA GRANDE, esse filme abertamente autobiográfico, expõe várias de suas fraquezas e virtudes exatamente desse fato. Algumas vezes o filme tenta negar sua própria origem de uma forma meio infantil, como esse próprio garoto, e falta uma análise mais profunda, ambicionada especialmente a partir do próprio título. Mas os méritos do filme são visíveis: é delicada a forma como o diretor projeta no garoto as angústias de seu tempo, a dramaturgia tem um conflito potente, o diretor encena de forma honesta, sem firulas, mas com boa atenção aos tempos, espaços e à decupagem, sempre muito funcionais. O filme me parece profundamente honesto, até mesmo nas suas deficiências. É um primeiro filme, um filme pessoal e uma declaração de princípios. Se CASA GRANDE vem sendo muito comparado com O SOM AO REDOR, me parece que uma melhor comparação vem com OBRA: são dois filmes de "filhos de burgueses" que questionam a herança de seus pais. Mas enquanto OBRA possui uma arquitetura suntuosa, um rigor estético que sufoca a crise de seu filme, CASA GRANDE exala mais maturidade porque, querendo menos impressionar "que se faz cinema", "que se sabe filmar", o filme busca respirar sua própria dramaturgia, tornando-se mais orgânico. Quando CASA GRANDE descamba para a farsa, flerta com o cinismo e julga a família rica, o filme me parece mais problemático. Quando se aproxima dos dilemas do filho, o filme cresce. O garoto reflete uma crise de maiores proporções, ele tem dúvidas, titubeia, fraqueja muitas vezes, é desengonçado, lança-se ao mundo, tropeça, etc. Decerto ele não tem a simpatia nem o otimismo da personagem de Regina Casé em QUE HORAS ELA VOLTA? O cinema brasileiro recente não tem muitos personagens jovens de força. O filme é muito honesto quando olha para esse universo. São bonitas as cenas no colégio, nas aulas e no recreio/intervalo. É envolvente o clima entre os meninos, é boa a movimentação no interior do quadro. É bonita a cena do beijo dos dois jovens na praia, em que o diretor curiosamente corta para um plano fora de eixo (tira a cidade ao fundo e joga o mar). Muito boas as cenas no ônibus - é difícil filmar dentro de um ônibus. Gosto de quando o filme sai da casa e avança para o mundo - as cenas em externa são importantes para o filme, pois é o desafio desse próprio garoto. Para um primeiro filme, CASA GRANDE tem muitos méritos. Resta aguardar o que Felipe Barbosa poderá fazer para além da base da autobiografia.

A diferença entre os filmes se dá muito pelo ponto de vista da narrativa: O SOM AO REDOR é uma "narrativa-coral"; QUE HORAS ELA VOLTA? se passa pelo ponto de vista da empregada doméstica; CASA GRANDE, pelo do filho dos patrões, entre sua franca recusa da vida dos pais e sua simpatia ingênua pela vida dos empregados. Ele conclui (de forma ingênua) que talvez haja mais beleza na vida dos empregados do que na dos patrões, e prefere ficar do lado daqueles. É ingênuo mas talvez funcione melhor do que OBRA, que lamenta a herança dos pais mas não consegue sair do seu (implodido) projeto arquitetônico e abrir-se para o mundo.

O sucesso dos três filmes também passa pelo seu cuidadoso (nada ingênuo) processo de produção: todos eles têm em comum o fato de terem sido reconhecidos primeiro no exterior, depois no seu próprio país. O SOM AO REDOR é o único verdadeiramente independente (produzido fora do eixo Rio-SP, produzido diretamente pelo próprio diretor), mas diretamente beneficiado pela longa trajetória do realizador nos festivais internacionais. Mesmo fora de Cannes e de Brasília, o filme encontrou rapidamente seu lugar de destaque. QUE HORAS ELA VOLTA? teve a produção dos Gullanes e a participação da Globo Filmes; CASA GRANDE foi produzido por Iafa Britz, da Migdal, produtora de larga experiência, especialmente nas comédias popularescas. O sucesso dos dois últimos curiosamente passou por Sundance e pelo mercado de arte norte-americano. O SOM AO REDOR e CASA GRANDE - é preciso sempre dizer - são primeiros filmes (os dois diretores já haviam realizado um longa, mas não importa). Nenhum dos três foi exibido na competitiva de Cannes, Veneza ou Berlim e isso não impediu que sejam três dos filmes mais relevantes na safra de filmes brasileiros, porque, acima de tudo, com maiores ou menores erros, se lançam a esse desafio de discutir o que é o nosso país.

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