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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

quinta-feira, setembro 24, 2015

(notas)



O ponto central de BIG JATO é uma frase falada lá no meio do filme "sertanejo forte é aquele que parte, não o que fica”. Fico na dúvida da potência dessa frase. Penso em pessoas que ficam e são fortes por isso: penso no (extraordinário) final do curta de Lucas Sá NO INTERIOR DA MINHA MÃE, penso na luta de Adirley Queirós em afirmar um espaço de resistência na Ceilândia. Penso na tensão nos curtas de Leo Mouramateus entre o desejo de ficar e de partir. O desafio de um cinema contemporâneo é buscar entender sem julgar, ou mostrar antes de narrar. Olhar com mais curiosidade para o outro. Esse desejo de fuga e de condenação do atraso do interior me incomodam em BIG JATO pois tenho dúvida se a fuga ou a saída por si só já são a solução. Mesmo O CEU DE SUELY vai colocar mais camadas entre esse desejo de fuga, de comprar a passagem para o lugar mais longe do mundo, e a efetiva possibilidade de sair.

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Jodorowsky em A DANÇA DA REALIDADE:
Só o amor (e o autoconhecimento) suplantam o ódio.
Não há fuga possível de si mesmo. Onde quer que você vá você continua diante de si mesmo.
O pai de Jodo sai em busca de vingança e no final reconhece seu lugar ao voltar para casa.

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A fuga pela fuga não é solução de nada.
Não existe mais hoje essa dualidade entre centro e periferia dos anos sessenta. Não dá para falar do Nordeste como se ainda estivéssemos na época de Aruanda ou de Viramundo.
A dinâmica social e econômica do Nordeste do país se tornou complexa e rica. Há muitas cidades do interior que se tornaram cidades médias (grandes), como Caruaru, Campina Grande, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Juazeiro do Norte, etc.
O acesso à internet mudou o panorama da fonte de informação para a juventude, que não ficou mais restrita à televisão.
A rádio (único espaço de criação) não comunica, é uma ilha. Então, é melhor partir. Mas por que não comunica? Por causa meramente da ignorância do outro? Como é possível criar as condições para que a voz do rádio possa ser ouvida, para que possa ser plantada uma semente?

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O que é o "cinema poético"? Aquele em que cada plano, cada elemento quer apontar para o espectador para a presença de um "sentimento poético de suspensão"? Poesia me parece ser apreender o mundo e o melhor cinema poético é aquele que evita ao máximo a explicitação do poético.

Assim sendo, depois de uma avalanche de filmes brasileiros (uma curadoria, um festival de cinema, etc), o mais poético filme que assisti nos últimos tempos é um modesto filme B: IT FOLLOWS. A poesia do filme está na aposta absoluta do diretor por um projeto de ingenuidade, por um projeto de anacronismo - IT FOLLOWS é um filme juvenil dos anos oitenta (não é, mas é como se fosse). IT FOLLOWS, esse filme de terror absurdamente poético, é comovente, pois é uma tentativa de purificação do cinema de gênero. Purificar - essa é a melhor palavra que encontro para tentar traduzir a frontalidade com que o filme encena seus vazios, suas solidões, como abraça seus personagens jovens, e em como traduz visualmente esses desafios numa distância precisa, ética, moral e humana. Essa é a liberdade de IT FOLLOWS e daí emana seu projeto de poesia.

Em IT FOLLOWS os personagens também partem (o filme é uma lúgubre despedida), mas com a certeza de que não vão a lugar algum para além deles mesmos.

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