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Cinecasulofilia

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sábado, novembro 14, 2015

GAROTO

GAROTO
de Julio Bressane






Já por seu título, GAROTO é uma prova da jovialidade de seu diretor. Não estamos apenas falando da juventude dos personagens - dessa época que funciona como uma penumbra, estado de descoberta - mas da própria juventude de um projeto de cinema.

No cinema brasileiro, vivemos (conjugo o verbo no passado recente) um período de renovação de um modo de fazer cinema, quando, em meados do século XXI, impulsionados pelas possibilidades do digital, uma geração de jovens realizadores mergulhou na produção de longas-metragens sem necessariamente se preocupar com o mercado, a aceitação do público e a "performance de suas carreiras", nem em "formar portfólios", mas simplesmente movidos pelo desejo ingênuo e louco de fazer um filme. Um projeto jovem de se fazer cinema.

Mas parece natural propor um cinema jovem quando se é jovem. O difícil é saber envelhecer. Quando se envelhece, alguns dizem que "agora, é preciso também pagar as contas". É preciso, então, "deixar para trás as loucuras saudáveis do tempo de adolescência, e se tornar adulto", o que quer dizer, fazer um "cinema mais respeitável", ou ainda, "mais responsável".

O que é formidável no cinema de Julio Bressane é, portanto, essa aposta radical e incontornável por um projeto de juventude, não como etapa de um processo cinematográfico, mas, ao contrário, de um projeto de resistência.

No entanto, para Bressane, ser jovem não representa essa adoção direta aos cacoetes da moda do cinema de autor - leia-se o mercado de arte do cinema internacional. Seu projeto de juventude foi sendo consolidado, sem pressa, durante os últimos cinquenta anos.

A juventude do cinema de Bressane está em sua aposta franca pela curiosidade, pela ingenuidade, pelo cinema de descoberta e pelo descompromisso com a repercussão de seus filmes.

Bressane pode ser visto como herdeiro do cinema de Mário Peixoto, por seu suposto intelectualismo e por suas tendências aristocráticas. Mas uma diferença é que Bressane fez muitos filmes. Eles estão aí, espalhados pelo mundo. É preciso vê-los.

GAROTO dialoga com diversos desses filmes, mas é, ao mesmo tempo, um passo para frente. Vemos alguns dos temas de EDUCAÇÃO SENTIMENTAL, mas aqui, uma enorme diferença, é que GAROTO é quase todo feito em externas. A oscilação entre o fluxo da natureza ou a aspereza das pedras é um dos temas desse filme. Namoro tropicalista (modernista) com o cinema de Straub - como, de outras formas, CLEÓPATRA, também o era: GAROTO é um filme jovem.

Numa época em que dizem que "os jovens precisam envelhecer", o gesto de Bressane, ao integrar o projeto da TELA BRILHADORA, nos relembra que é preciso "saber envelhecer". No caso de Bressane, é notável como esse cineasta que não é mais jovem, preserva-se cada vez mais jovem, pela sua franca aposta por um cinema genuinamente jovem. Repetindo-se para não ser nunca o mesmo. Ou seja, nunca repetindo, mas dizendo outra vez, mais uma vez. O mundo é o mesmo e se transforma. Quando fazemos um filme, inventamos mundos possíveis. E assim, diante da morte, as coisas vão ganhando vida.

quarta-feira, novembro 04, 2015

TROPYKAOS

TROPYKAOS
de Daniel Lisboa




           
            Daniel Lisboa é um dos principais talentos da nova geração do cinema baiano, propondo um cinema com uma pegada jovem que dialoga diretamente com a nova geração do cinema brasileiro contemporâneo. Seus curtas combinam um trabalho de pesquisa de linguagem com uma abordagem irreverente que marcou presença na cena jovem do cinema brasileiro. Se o cinema no Nordeste no século XXI ficou marcado por muitos casos de inventividade da nova geração, em Pernambuco, no Ceará, na Paraíba, me parece que na Bahia essa adesão foi mais tardia, ou com menos impacto. A afirmação recente do cinema baiano passa pela presença de uma geração anterior (Edgard Navarro, Fernando Belens, José Araripe Jr., Pola Ribeiro, José Umberto Dias, Jorge Alfredo, etc.), que ficou sem filmar por conta dos atropelos do cinema brasileiro vítima das leis de incentivo e dos modelos de captação de recursos.
            Assim, era grande a expectativa em torno do primeiro longa-metragem de Daniel Lisboa, pela importância simbólica que seus trabalhos possuem no contexto de uma renovação do cinema baiano e seu diálogo com as atuais tendências do cinema brasileiro. Mas enquanto seus companheiros de geração faziam seu primeiro, segundo longa, Daniel permanecia trabalhando em seu primeiro projeto. Por que?
            Pelo seu desejo em montar uma estrutura de produção razoavelmente sólida para fazer seu filme. Ou seja, TROPYKAOS não é o "cinema de garagem", feito na raça ou na brodagem, com poucos recursos. Claro que sabemos que os recursos são sempre escassos no cinema brasileiro, mas a opção de Daniel Lisboa se diferencia um pouco dos seus demais colegas de geração.
            Assim, TROPYKAOS não é "cinema marginal", mas um primeiro longa-metragem com uma estrutura de produção sólida, que passou por diversos editais de desenvolvimento, inclusive internacionais, e com patrocínio da Petrobras e do Governo do Estado da Bahia.
            De outro lado, TROPYKAOS não se propõe a ser um filme industrial de direto diálogo com o público, mas uma obra que espelha uma projeção de seu autor de refletir sobre os dilemas da juventude numa Salvador de hoje.
            Entre a garagem e a indústria, TROPYKAOS propõe um cinema narrativo de certa comunicação com o público jovem, um personagem frontal e situações claras, mas ao mesmo tempo um filme que foge dos padrões do atual modelo do comércio cinematográfico.
            Como entender essa posição? Como um paradoxo?

            Não vejo dessa forma, mas simplesmente que TROPYKAOS tem um modelo de produção compatível com seu desejo de expressão, e especialmente compatível com o olhar de seu personagem - que em muitas medidas não temos como não deixar de associá-lo como uma espécie de alter ego do seu diretor.

            Guima (Gabriel Pardal) é um jovem artista que tenta finalizar seu primeiro livro, mas não consegue equlíbrio para trabalhar. Seus demônios o atormentam. Ele precisa de um ar-condicionado, mas aos poucos vamos vendo que a situação não é meramente física: ele precisa de um "ar-condicionado craniano", é algo dentro de seu cérebro. Talvez sejam as drogas pesadas (o crack), talvez seja sua falta de rotina. O fato é que ele é inquieto demais, e, perturbado, não consegue mais criar. A falta de dinheiro o persegue, mas não é apenas isso. É um conjunto de coisas, mas as situações mundanas o impedem de criar. Guima é um grande talento de sua geração mas não consegue finalizar seu livro. Ele precisa prestar contas para a SECULT, mas não consegue finalizar nada, e, afinal, precisa ceder, para ganhar um pouco mais de tempo.
            Fico pensando que a produção do próprio TROPYKAOS teve muitos atropelos, a ponto de a produção chegar a ser interrompida por falta de grana e ter que retomar mais de um ano depois. As filmagens foram caóticas, muitas cenas caíram na montagem, o filme ganhou outra cara após seu longo e sinuoso processo, que demorou cerca de seis anos.
            Daniel é esse cara.

*   *   *

            A principal referência de TROPYKAOS é sem dúvida o SUPEROUTRO, de Edgard Navarro. Os dois filmes falam de um personagem-poeta que vagueia pelas ruas de Salvador em busca de algum sentido para a sua vida, e acaba esbarrando com situações e pessoas inusitadas. O SUPEROUTRO de Navarro é esse marginal solitário mas cuja solidão não é solução de nada, apenas uma tentativa louca de se viver em liberdade, numa sociedade que tenta capturar nossa possibilidade de ser. SUPEROUTRO é também um filme de boa produção, com muitas locações e personagens e situações, e propõe um certo diálogo com um público jovem. Não é lacônico e dispersivo como o protótipo dos filmes do chamado "cinema marginal".
            Fico pensando que TROPYKAOS é o SUPEROUTRO do século XXI. É bem verdade que o filme antológico de Edgard Navarro é muito mais radical pela forma como lida com a marginalidade de seu personagem, que vive nas ruas e passa por situações muito mais inusitadas.
            Guima é filho de SUPEROUTRO, que o conheceu não nas ruas mas pelo cinema. Porque no fundo o próprio filme reconhece as muitas limitações de seu personagem. Guima no fundo é um pequeno playboy que não deu certo. Não é um bon vivant: tem um "nervosismo" amargo, tenta superar uma espécie de doença, uma quase esquizofrenia. Parece louco, não consegue se adaptar, faz atitudes condenáveis. Mas é loiro, bem formado, possui pais com uma boa situação econômica (embora pão-duros e decadentes).
            Ou seja, Daniel sabe que não é o SUPEROUTRO e nem deseja que seu filme evoque a liberdade anárquica dos filmes do cinema marginal. Seu filme simplesmente fala de um personagem que busca seu lugar no mundo, que busca se equilibrar, assumindo todas as suas precariedades e contradições.
            Essa me parece ser a grande beleza de TROPYKAOS: seu desejo de retomar (dialogar, prosseguir) uma tradição de juventude e de marginalidade de um certo cinema baiano (METEORANGO KID, CAVEIRA MY FRIEND, SUPEROUTRO) mas sua plena conciência de que essa adesão não pode ser plena. Assim, consegue um retrato absolutamente humano das contradições da juventude de sua época. A incapacidade e a necessidade de criar, a solidão e o desejo de estar junto de alguém, os altos-e-baixos de seu personagem dialogam diretamente com uma narrativa que quer fugir dos padrões mas ao mesmo tempo ser clara o suficiente para propor uma comunicação direta com um certo público jovem.
            A forma frontal como Daniel expõe as contradições de seu personagem torna TROPYKAOS um dos mais honestos relatos dos dilemas do artista jovem no país, espelhando essa fissura entre encontrar um lugar próprio no mundo e não conseguir negar sua origem pequeno-burguesa.

            Daniel é esse cara. Ainda que Guima não encontre solução ao final do filme, ele atinge um estágio de plenitude. Ele queima, literalmente. Ele morre, mas seu fracasso - que não é exemplo para ninguém - de alguma forma é uma libertação, pois seu próprio corpo se tornou a sua obra. Das palavras ao vento ele se tornou carne viva: ele entrega então seu corpo aos urubus que sobrevoam seu fracasso. Seu desequilíbrio interno tornou-se motor de combustão. Sua autocombustão não muda nada - aparentemente. Mas ali, naquele momento, me parece que Guima atinge a plenitude por conseguir escapar do mundo das contingências e da necessidade e conseguir transformar a si mesmo nessa espécie de obra póstuma. A grande obra de Daniel é sua extirpação pública, o seu próprio fim.
            Algo que poderia nos remeter até mesmo ao final de O SIGNO DO CAOS, de Rogério Sganzerla. Mas Rogério estava morrendo, e, grande gênio, foi impedido brutalmente de prosseguir criando por dezenas de anos. No caso de Daniel, digamos que é um final muito exagerado para uma obra que está apenas começando - espera-se.

*   *   *

            Em SUPEROUTRO o personagem acaba numa espécie de morte, mas voando, voando, voando. Ele não fracassa, mas ingressa em outro mundo (o do cinema, talvez).
           Preocupado demais com a exposição de seu fracasso, o que talvez falte a TROPYKAOS seja o desejo de (ainda assim) voar.