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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

sexta-feira, janeiro 08, 2016


Outro dia tive que dar uma entrevista sobre crítica e respondi que o que me interessava no cinema era sobretudo as suas questões morais. O entrevistador não entendeu muito bem, e eu pude esclarecer dizendo que o que me interessava no cinema, mais do que questões estéticas, era como as opções de um realizador (opções que não se esgotam apenas na mise en scene de um filme, mas que se expressam sobretudo nela, ou seja, em questões sobretudo de linguagem, mas não apenas estas...) revelavam a sua visão do lugar do Homem no mundo, pois o que mais me interessa na arte é como ela compreende o Homem e como o empurra para transformar o mundo (e assim nos empurra). Assim, defendo o cinema como uma arte moral.

Por isso, alguns filmes podem ser fascinantes mas não me interessam muito. Em outros, a relação é ao contrário. Por exemplo, WINTER SLEEP é um filme que me interessa muito. O autor certamente vê o cinema como uma arte moral. O filme está concentrado em refletir questões morais sobre o papel do Homem. Assim, vejo o filme com total interesse, cujos pressupostos me interessam muitíssimo. E o filme é muito forte e bem realizado. Saio da sessão fascinado e seduzido pela sobriedade do discurso do filme. Porém, com mais vagar, a neve vai caindo. E percebo que, se Ceylan está totalmente imerso em refletir sobre o papel moral do cinema, não compartilho com esse olhar. Vou me afastando do filme. Por quê? Porque, na verdade, Ceylan não compreende de fato os seus personagens, mas os julga. Ele faz quase como o jogo que o protagonista faz com quem está a sua volta, uma espécie de jogo sofista de sedução fascinante. O filme tem uma base de fundo moral mas usa sua moralidade para fazer um julgamento do padrão moral de seus personagens, mais do que mergulha de fato numa situação humana de compreender sua natureza. O filme aparentemente busca entender as contradições interiores dos personagens, mas, quando refleti melhor, concluí que ele prefere julgá-los do que abraçá-los. Dessa forma, se compartilho com a preocupação moral de Ceylan em WINTER SLEEP, discordo frontalmente de como ele dá a ver o que é o Homem e o mundo, e qual o papel do cinema diante de suas limitações. Ou seja, que o mundo é uma merda (ou, uma "grande decepção", como diria Ozu) todos sabemos, mas a questão que vem a seguir é: o que fazer diante disso?

quarta-feira, janeiro 06, 2016

PHOENIX

PHOENIX
de Christian Petzold




Extraordinário filme de Christian Petzold, esse expoente da chamada "escola de Berlim", que deu novo gás ao cinema alemão deste século. Filme de maturidade, roteirizado por seu velho professor, ninguém menos que Harun Farocki, PHOENIX é um filme político, que carrega na sobriedade de sua mise en scene um comentário sobre a polítca no cinema, um pouco à moda do que faz Todd Haynes (que, por sua vez, já dialogava com Fassbinder). São muitas camadas que precisariam ser melhor detalhadas, mas aqui tento rascuhá-las. Não posso entrar muito em detalhes sobre a narrativa sem evitar os spoilers, mas eu diria que o filme é sobre uma mulher sobrevivente de um campo de concentração que procura reconstruir sua vida, tentando voltar para seu marido, e para isso precisa assumir outra identidade.... a dela mesma! rs. Com isso, o filme mrgulha de frente nesse trauma alemão que é o seu "passado não reconciliado", a sombra do genocídio do Holocausto. O filme busca se concetrar nessa herança no imediato pós-guerra, em que os sobreviventes precisam reconstruir as suas vidas, caminhar para frente, voltar para seus lares. Não é possível mais ser o que se era antes, é preciso assumir uma outra identidade, mas nem tanto. Pois é preciso prosseguir: ser outro sem deixar de ser si mesmo, ou ser si mesmo mesmo sendo outro. E mais: é preciso perdoar para se prosseguir, é preciso olhar para frente mais do que olhar para trás. São temas difíceis, especialmente para a Alemanha. E especialmente nessa Europa fragmentada pelo terrorismo e pelo ressentimento. O filme é muito belo exatamente por seu humanismo: uma mulher que, apesar de tudo, ainda ama seu marido e quer reconstruir sua vida. PHOENIX, por conta das "trocas de identidade", foi muito comparado com VERTIGO, mas prefiro aproximá-lo dos filmes de Fassbinder e especialmente de GERTRUD, de Dreyer. Primeiramente por ser um filme sobre uma mulher que busca amar acima de tudo (acima da "moralidade"), mas também por sua mise en scene sóbria, por seu discurso moral. É incrível o trabalho meticuloso de mise en scene de Petzold e equipe. A arte, as cores, a luz - algo que também nos faz lembrar de um ou outro filme de Sirk - mas também os tempos, todos de enorme precisão, contenção e pureza. Os gestos, olhares e movimento dos corpos desse filme são todos quase puros - e isso é lindo! O trabalho de todo o elenco, mas sobretudo a extraordinária Nina Hoss, no olhar mas especialmente nos movimentos de todo o corpo. O filme todo respira um clima de tensão, expresso através de movimentos lânguidos, de tempos coreografados com enorme precisão, mas uma precisão que nunca oprime ou esmaga o filme em fútil formalismo. Por outro lado, os temas da troca da identidade e a sensação do mundo pós-guerra fizeram com que, naturalmente, dada a história do cinema alemão, o filme dialogasse claramente com o expressionismo alemão e com o filme noir. Os temas da máscara, do duplo, dos assassinos nos becos das ruas escuras são temas muito caros ao cinema alemão, e Petzold é ciente disso, e dialoga com essa tradição com enorme responsabilidade, mas ao mesmo tempo, sem querer simplesmente emular essa tradição mas revigorando-a, imprimindo seu olhar, como no uso das cores e da música dentro do salão. Ainda, a narrativa de PHOENIX é de enorme primor: a reflexão política do filme é contrabalançada com uma estrutura dramatúrgica de suspense que confere ao filme uma escalada asfixiante. Tudo isso culmina num final simplesmente inacreditável, quando Nina Hoss canta "speak low" (de Kurt Weill) num piano. Nessa sequência final, diversos dos elementos dramatúrgicos (tempos, corpo, luz, cores, decupagem, política) assumem uma síntese fascinante, em que o tom emocional do filme explode ainda que por meio de toda uma estratégia de contenção. Tudo está implícito, assim tudo está explícito - como o bom cinema pode fazer: os olhares que respondem ou não respondem já contêm toda a ação (as pausas, os silêncios, etc.). Pela bela ousadia de seu gesto político (o amor que vence o ressentimento) e pela extraordinária precisão de sua mise en scene, pela elegância da atualização de sua feitura no cinema clássico, PHOENIX é um dos melhores filmes do ano, e comprova o talento de escritura de Christian Petzold.

terça-feira, janeiro 05, 2016

MIA MADRE

MINHA MÃE
de Nanni Moretti




Me espanta saber que MIA MADRE foi considerado pela Cahiers de Cinema o melhor filme de 2015. Gostaria de saber os motivos, já que a mim me pareceu um filme muito do requentado sobre as relações da família e do cinema. MIA MADRE me parece muito próximo de O QUARTO DO FILHO, especialmente numa busca em combinar comédia e drama, tornando para o espectador um sentimento de drama de luto extremo, com a perda de um parente muito próximo, mais palatável, entrecruzando com momentos de comédia, quase como uma crônica de como "a vida é assim mesmo", "feita de perdas-e-ganhos", e que no final precisa ser vista dessa forma leve, "vamos viver enquanto é possível", e todas as coisas confortáveis do tipo. MIA MADRE entrecruza cenas em que uma mulher visita a mãe (desenganada) no hospital com cenas de seu trabalho como cineasta, em que ela precisa dirigir um filme, lidar com uma equipe, especialmente com um ator bobão que mal decora as falas. Essa mulher aprende a ser "mais humana" quando se depara com a perda da mãe: percebe que tem sido egoísta, e que precisa olhar mais de perto para sua família (filha e irmão) e se dedicar menos ao trabalho (seus filmes), etc, etc. Acontece que essas relações são apresentadas por meio de um humanismo frouxo que explica tudo pelos diálogos e redime todas as ações dos personagens pelo perdão, resultando num catolicismo acadêmico que busca confortar (ou entreter) o espectador, ao invés de fazê-lo refletir sobre o que quer que seja. Num momento do filme, a diretora diz que "o ator precisa sempre estar ao lado do personagem", uma frase tipicamente do teatro brechtiano, que propunha a não identificação entre ator e personagem, ou entre personagem e público, como avesso da catarse, essa inimiga da reflexão. Parece que Moretti faz o oposto, pois se busca evitar que o filme caia num melodrama cerimonioso, contemplativo e condenatório (como um AMOR), cai numa outra armadilha: a da superficialidade reacionária. O esquematismo e o "feel good" de MIA MADRE revelam seu humanismo de folhetim. Um filme sobre uma cineasta que não quer filmar, filmado sem nenhum plano que respira alguma beleza de mise en scene. Um filme sobre uma mulher que descobre que o mundo vai além de seus filmes, filmado sem nenhum plano em que o diretor se abre para o mundo ou para a paisagem. Um filme típico do "mercado do cinema de arte europeu" que a Cahiers resolveu eleger como o melhor de 2015....

THE VISIT


A VISITA
de M. Night Shyamalan



Entendo o ânimo de muitos ao ver o novo Shyamalan A VISITA, como uma espécie de retorno ao cinema de suas origens, ao tema da casa/família e a uma estrutura de produção de filme B. Menos pretensioso, respirando mais prazer em filmar, A VISITA pode encantar como filme menor na filmografia de um cineasta estrangeiro (um indiano em Hollywood) cujo destino parece ser o de fazer blockbusters e redimir o cinema americano a uma proximidade de uma herança spielberguiana (seja lá o que isso signifique). Mas, para além da suposta missão de Shyamalan, é preciso ir aos filmes, e, indo a eles, talvez seja um pouco precipitada a condenação de decadência do diretor dada a sua dificuldade de diálogo com a crítica e com o público. Pois os mais notáveis filmes de Shyamalan foram justamente aqueles que buscaram uma investigação do que ainda é possível crer nessa terra materialista chamada America, ou - uma analogia a isso - resgatar uma fé no que é visível. É preciso também ver, estar frente a frente com o desconhecido e revelá-lo, como mostra o arriscado final de SINAIS. É de fato possível fazer o elogio de A VISITA como filme B - um filme menos preocupado com os traços mais visíveis da assinatura Shyamalan para uma investigação mais pura de alguns dos seus indícios. Podemos começar pelo próprio dispositivo: um filme em falso found footage, em que um casal de crianças (dois irmãos) vão passar férias na casa dos avós, e resolvem filmar essa viagem. Filme-dentro-do-filme, as crianças enquanto se descobrem a si mesmas, enquanto descobrem quem de fato são seus avós (sua origem), descobrem também a natureza do cinema (é preciso mostrar). Dessa pureza de princípios, nasce A VISITA. Mas também, à medida que se desenvolve o filme, percebemos que esse dispositivo, mais do que corolário ético, acaba se tornando um mero artifício para desdobrar a narrativa do filme. Engenhoso muito mais como narrativa do que como forma de estar no mundo, o descuido cuidadosamente orquestrado por Shyamalan e seu diretor de fotografia equilibra o caseiro e o espontâneo ao típico produto narrativo-industrial da Hollywood do novo milênio. Ou ainda, estão mais em função da narrativa do que de fato uma forma de dar a ver essa descoberta do mundo. Disso decorre que todo o filme busca ser funcional, pregando peças, jogando com o suspense, despertando pequenos sustos, mas pouco aprofunda algo de uma busca espiritual que vá além dos fatos em si - que era o que no fundo interessava nos melhores filmes de Shyamalan. É verdade que esse pequeno filme é em muitos momentos encantador e sedutor na forma hábil como prende o espectador e joga a narrativa para frente, por meio de planos-ponto-de-vista, em como sugere climas e jogos de suspense com o vazio e as expectativas. Mas, para além desse deleite breve, cujo espontaneísmo é claramente marcado, sinto falta de um traço de ousadia que mesmo os piores filmes de Shyamalan continham: não apenas um gosto de cinema mas um gosto de fé, de vida, de crença naquilo que não pode ser visto mas que está ali. É o que se vê, por exemplo, em IT FOLLOWS, em que as convenções do gênero do terror cada vez mais se abrem para uma visão sobre a juventude espelhada por uma mise en scene espiralada. Assim, leio A VISITA quase como uma antítese de IT FOLLOWS, já que o primeiro é um filme centrífugo que leva os personagens a se descobrirem, enquanto o segundo se abre para o mundo, que faz os personagens se perderem. Ou seja, A VISITA está mais para o jogo formal de YOU´RE NEXT do que para o existencialismo de IT FOLLOWS (mal comparando...). Por esse motivo, se A VISITA é um filme delicioso por sua despretensão, ao final o vazio que fica no espectador não é o deixado pelos personagens mas pela própria narrativa em montanha-russa-de-suspense que, quando acaba, apenas termina, e transforma pouco. Sensação comprovada no final "tríptico", que se alonga para além do primeiro final (típico) e oscila entre o sentimental spilberguiano e a paródia-de-si-mesmo.