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Cinecasulofilia

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terça-feira, janeiro 05, 2016

THE VISIT


A VISITA
de M. Night Shyamalan



Entendo o ânimo de muitos ao ver o novo Shyamalan A VISITA, como uma espécie de retorno ao cinema de suas origens, ao tema da casa/família e a uma estrutura de produção de filme B. Menos pretensioso, respirando mais prazer em filmar, A VISITA pode encantar como filme menor na filmografia de um cineasta estrangeiro (um indiano em Hollywood) cujo destino parece ser o de fazer blockbusters e redimir o cinema americano a uma proximidade de uma herança spielberguiana (seja lá o que isso signifique). Mas, para além da suposta missão de Shyamalan, é preciso ir aos filmes, e, indo a eles, talvez seja um pouco precipitada a condenação de decadência do diretor dada a sua dificuldade de diálogo com a crítica e com o público. Pois os mais notáveis filmes de Shyamalan foram justamente aqueles que buscaram uma investigação do que ainda é possível crer nessa terra materialista chamada America, ou - uma analogia a isso - resgatar uma fé no que é visível. É preciso também ver, estar frente a frente com o desconhecido e revelá-lo, como mostra o arriscado final de SINAIS. É de fato possível fazer o elogio de A VISITA como filme B - um filme menos preocupado com os traços mais visíveis da assinatura Shyamalan para uma investigação mais pura de alguns dos seus indícios. Podemos começar pelo próprio dispositivo: um filme em falso found footage, em que um casal de crianças (dois irmãos) vão passar férias na casa dos avós, e resolvem filmar essa viagem. Filme-dentro-do-filme, as crianças enquanto se descobrem a si mesmas, enquanto descobrem quem de fato são seus avós (sua origem), descobrem também a natureza do cinema (é preciso mostrar). Dessa pureza de princípios, nasce A VISITA. Mas também, à medida que se desenvolve o filme, percebemos que esse dispositivo, mais do que corolário ético, acaba se tornando um mero artifício para desdobrar a narrativa do filme. Engenhoso muito mais como narrativa do que como forma de estar no mundo, o descuido cuidadosamente orquestrado por Shyamalan e seu diretor de fotografia equilibra o caseiro e o espontâneo ao típico produto narrativo-industrial da Hollywood do novo milênio. Ou ainda, estão mais em função da narrativa do que de fato uma forma de dar a ver essa descoberta do mundo. Disso decorre que todo o filme busca ser funcional, pregando peças, jogando com o suspense, despertando pequenos sustos, mas pouco aprofunda algo de uma busca espiritual que vá além dos fatos em si - que era o que no fundo interessava nos melhores filmes de Shyamalan. É verdade que esse pequeno filme é em muitos momentos encantador e sedutor na forma hábil como prende o espectador e joga a narrativa para frente, por meio de planos-ponto-de-vista, em como sugere climas e jogos de suspense com o vazio e as expectativas. Mas, para além desse deleite breve, cujo espontaneísmo é claramente marcado, sinto falta de um traço de ousadia que mesmo os piores filmes de Shyamalan continham: não apenas um gosto de cinema mas um gosto de fé, de vida, de crença naquilo que não pode ser visto mas que está ali. É o que se vê, por exemplo, em IT FOLLOWS, em que as convenções do gênero do terror cada vez mais se abrem para uma visão sobre a juventude espelhada por uma mise en scene espiralada. Assim, leio A VISITA quase como uma antítese de IT FOLLOWS, já que o primeiro é um filme centrífugo que leva os personagens a se descobrirem, enquanto o segundo se abre para o mundo, que faz os personagens se perderem. Ou seja, A VISITA está mais para o jogo formal de YOU´RE NEXT do que para o existencialismo de IT FOLLOWS (mal comparando...). Por esse motivo, se A VISITA é um filme delicioso por sua despretensão, ao final o vazio que fica no espectador não é o deixado pelos personagens mas pela própria narrativa em montanha-russa-de-suspense que, quando acaba, apenas termina, e transforma pouco. Sensação comprovada no final "tríptico", que se alonga para além do primeiro final (típico) e oscila entre o sentimental spilberguiano e a paródia-de-si-mesmo.

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