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sábado, outubro 22, 2016

O SHAOLIN DO SERTÃO

O SHAOLIN DO SERTÃO
de Halder Gomes

(Davi luta contra Golias: o personagem de Edmilson Filho representa a própria posição de Halder Gomes dentro do cinema brasileiro)



            Embalado pela até certo ponto inesperada repercussão de Cine Holliúdy, Halder Gomes apresenta, no aguardado O Shaolin do Sertão, um prolongamento de sua visão de cinema, ensaiada no filme anterior. A posição de Halder dentro do cinema brasileiro de hoje é, por isso, exemplar, pela sua singularidade. Halder busca um cinema de claro contato com o público, por meio de uma narrativa popular: a principal referência cinematográfica para os dois filmes de Halder é a comédia popular brasileira, passando pelas chanchadas, pelo cinema de Mazzaropi e dos Trapalhões. Não é à toa que Halder escolheu justamente Dedé Santana para interpretar um dos personagens.
            Essa posição é curiosa, pois o cinema brasileiro comercial de hoje é basicamente sustentado por um modelo de comédia que, diferentemente de um cinema popular, busca um modelo narrativo estruturado num olhar para a classe média. Desde filmes com um teor sexual mais explícito (Os Normais, E aí, comeu?, De pernas pro ar) até fábulas que dialogam com ambições ou perfis de comportamento (Até que a sorte nos separe, Se eu fosse você), o padrão da comédia brasileira deste século fugiu do modelo do início da retomada, baseado em personalidades, como os filmes de Didi e da Xuxa, âncoras do cinema da Diler & Associados, um cinema rápido e desleixado, em que o roteiro e o desenvolvimento do projeto eram acessórios em relação à exposição da personalidade televisiva que, por si só, já se tornava garantia de sucesso comercial.
            O cinema de Halder escapa desses modelos, ao dialogar com uma tradição da comédia popular brasileira, muito presente no cinema brasileiro e também na televisão. Da chanchada, Halder extrai a composição de personagens ingênuos que formam, no meio de seus quiproquós, um enlace amoroso com a mocinha pura (a pretendente de Edmilson Filho parece, até mesmo em sua fisionomia, uma das personagens de Eliana Macedo). Dialoga também com um tom de paródia, como nas referências aos filmes de kung-fu e aos filmes de ringue (como Rocky). Se Cine Holliúdy tinha como base a cena dentro do cinema (uma metalinguagem), em O Shaolin a cena principal se passa numa espécie de circo, mas que, desta vez, apresenta um espetáculo de luta livre, claramente inspirado no telecatch. O uso do telecatch por Halder não é acidental, representando por excelência o seu sentimento de nostalgia por um cinema, por um país e por um interior despoluído dos símbolos típicos da contemporaneidade. O telecatch combina, por excelência, o teatro, a luta e o circo. Trata-se de uma encenação teatral a um processo de luta, causando, ao invés da violência, sua sublimação pelo efeito do humor. A relação de Halder com o kung fu é justamente essa: o menino pobre do sertão de Quixadá busca seu lugar no mundo não através da violência contra aqueles que o oprimem (como o típico caso do vaqueiro em Deus e o Diabo) mas a violência (o domínio das artes marciais) se torna um misto entre arte e espetáculo, ou ainda, uma forma de ser incluído e aceito pelo sistema (o emprego na prefeitura, o casamento com a filha do chefe). A relação de trabalho é notável: o padeiro Edmilson quer apenas se casar com a filha do patrão. O personagem de Edmilson é ingênuo, mas aceita entrar numa estratégia que envolve o candidato a prefeito local e um jogo de sedução com seu chefe oportunista, que ora o apoia ora o critica, dependendo para que lado a maré sopra. A violência de Edmilson é ingênua, é uma paródia de si mesma: não transforma a sociedade local, mas simplesmente a sua própria vida, seu desejo de sonho, sucesso e reconhecimento individuais. Edmilson é a classe C que pode dar certo, que tem talento e "merece subir na vida", para chegar, se fizer bem a sua parte no espetáculo, à classe média. Edmilson é o alter ego da posição do Halder dentro do cinema brasileiro.
            Além das chanchadas, O Shaolin do Sertão dialoga com o cinema de Mazzaroppi, trocando o interior paulista (o caipira) pelo interior nordestino (o sertanejo). A importância da paisagem, a revalorização do interior do país, a ingenuidade como motor de transformação ou de resistência, o desejo de mudança a partir da conciliação com o poder estabelecido são algumas das características que nos permitem aproximar os dois realizadores. Do cinema dos Trapalhões, Halder extrai o humor escrachado cearense, os trocadilhos verbais, o cinema de aventuras, o gosto pelo slapstick.
            Falando em slapstick, O Shaolin do Sertão, assim como Cine Holliúdy, só é possível pela extraordinária presença de Edmilson Filho, a ponto de quase torná-lo um coautor do filme. Seu personagem, além da presença cativante e de seu formidável humor verbal, se estrutura por meio de um dos mais impressionantes trabalhos de corpo do cinema brasileiro recente. Edmilson precisou combinar o tom franzino e ingênuo de seu personagem (o humor) com uma enorme velocidade e precisão nos movimentos de corpo, especialmente nas cenas dos treinos e também a da luta final. Diferentemente das comédias brasileiras recentes de classe média, o humor do personagem de Edmilson muitas vezes surge de um humor físico, próximo da slapstick mas que também lembra o cinema de Oscarito. É como se Edmilson fosse uma mistura do acrobático e circense Buster Keaton com a poesia ingênua e o lirismo de um Chaplin.
            Cine Holliúdy é um fime nostálgico. As salas de cinema são um último refúgio à transformação do interior, especialmente com a chegada da televisão. Agora, em O Shaolin do Sertão, a televisão não é mais vista como elemento negativo. Os cinemas de rua já acabaram e é ela quem irá transmitir, para todo o país, a luta final. É preciso lembrar que o telecatch chegou a ser um programa de sucesso na TV Excelsior, em meados dos anos sessenta. Diferentemente de Cine Holliúdy, contemplado num edital de Baixo Orçamento do MinC, O Shaolin do Sertão é coproduzido pela Globo Filmes, tendo Cacá Diegues como produtor associado, e o investimento de três distribuidoras de peso: Paramount, Paris e Downtown, tornando-se provavelmente o filme mais caro da história do cinema cearense.
            Esse feito também fala das transformações do interior do Brasil, em especial do Nordeste, e também do cinema brasileiro. É curioso ver um projeto de uma empresa do interior do Ceará (a ATC Entretenimento, empresa de Halder, está sediada em Aquiraz) tendo tamanha estrutura de produção, e envolvendo grande parte de técnicos locais para a realização do filme. A relação entre centro e periferia no capitalismo contemporâneo se complexifica de tal forma que agora não temos mais um cineasta do Rio vindo filmar no Nordeste, mas os nordestinos contando as suas próprias histórias. Fico pensando nas diferenças e semelhanças entre Aquarius e O Shaolin do Sertão. A Globo Filmes para Halder é como o Festival de Cannes para Kleber. E ambos tiveram o curioso apoio da Globo para realizar o seu sonho. Seus filmes falam de personagens fortes que resistem e tentam transformar o mundo. Mas talvez eles mudem de fato muito pouco o seu redor. Quais são os sonhos que motivam nosso cinema brasileiro de hoje?
            Cine Holliúdy foi um enorme sucesso no Ceará, mas não teve boa repercussão comercial fora do estado. Com uma notável estrutura de produção e de marketing, O Shaolin será a prova de fogo para Halder, prova se sua visão romântica de cinema também pode conquistar a classe média dos grandes centros, acostumadas a um outro tipo de comédia. O "exotismo", a paródia, a simpatia da narrativa clássica de O Shaolin do Sertão conseguirão conquistar o Brasil? O modelo do cinema de Halder é apenas uma estratégia regional ou tem fôlego para avançar para outras classes e regiões? São notáveis o sucesso e a repercussão do cinema de Halder, que se transformou em um "status cult". Vamos aguardar para ver se, assim como seu protagonista, Halder consegue derrotar Golias e ainda se sair com a mocinha.

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