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Cinecasulofilia

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quarta-feira, janeiro 25, 2017

[20a. MOSTRA TIRADENTES] UM FILME DE CINEMA



UM FILME DE CINEMA
de Thiago B. Mendonça




O segundo longa-metragem de Thiago Mendonça gerou um enorme estranhamento ao ser projetado na tela do Cine Tenda em Tiradentes. É curioso falar isso de um projeto de filme infantil bastante coeso dentro de uma narrativa clássica. Mas o estranhamento veio de dois lados. Primeiro, dado o perfil da filmografia do diretor, com filmes de forte base política ou de olhar para a periferia (social ou mesmo do cinema), como comprova seu primeiro filme "Jovens infelizes", cuja primeira exibição aconteceu justamente um ano antes na mesma Aurora de Tiradentes. O segundo estranhamento veio do gesto da própria curadoria em selecionar um filme com esse perfil para integrar a Mostra Aurora. Completando 10 anos, a Aurora sempre foi estruturada em torno de filmes que propõem uma visão de experimentação de linguagem e de outras possibilidades para o cinema autorais brasileiro. Sem dúvida, UM FILME DE CINEMA é um gesto ousado de seu realizador, por se colocar num lugar movediço, diferente de tudo o que fez antes, ou da face mais "reconhecível" de sua filmografia - afinal, diz a cartilha que os "autores" precisam prolongar, aprofundar os mesmos caminhos - e, assim, a curadoria prolonga a ousadia desse gesto de "deslocamento" proposto pelo diretor. Ao mesmo tempo, esse gesto acaba soando mais como uma provocação do que propriamente uma proposição, visto que me parece que UM FILME DE CINEMA não possui fôlego para, tomando como ponto de partida o "gênero" do filme infantil, propor uma mise en scene que irá oxigenar ou arejar o cinema brasileiro contemporâneo em termos de um olhar para sua linguagem.

Ao mesmo tempo, me parece claro que UM FILME DE CINEMA não é de modo algum algo um "desserviço" ou algo que manche ou comprometa a filmografia de Mendonça. Desde as cartelas iniciais, o projeto já se apresenta: um projeto voltado para o edital de TVS públicas, na linha diretamente voltada para o público infantil. E também é claro que o cinema brasileiro precisa de mais conteúdos para essa faixa de público, que já começa formada pelos formatos norte-americanos, presentes em canais como Discovery Kids, Cartoon, etc. E o desafio de produzir um filme infantil que possua uma marca própria, um olhar autoral, é inegável.

UM FILME DE CINEMA narra as aventuras de uma criança de classe média que se vê em desventuras quando resolve fazer um filme como trabalho de escola, meio que na onda de seu pai, um cineasta em crise afetiva. A relação entre cinema e vida é clara desde o título. Ao mesmo tempo, o filme (o cinema) é uma forma de a filha se aproximar do pai. De modo que, talvez mais do que um filme sobre o cinema, é um filme sobre a relação de uma filha com um pai. Nesse processo, Thiago mostra como o cinema (o ato da criação) pode ser um gesto que, mesmo ingênuo, acaba soando subversivo, talvez por sua própria ingenuidade: a produção do filme acaba gerando um mal estar na escola; uma troca de rolos gera uma crítica irônica ao próprio circuito dos festivais. A instituição "escola" e a instituição "cinema" sofrem um abalo mas nada que vá alterar sua estrutura de funcionamento, algo que realmente transforme sua estrutura conservadora. Para além disso, Thiago não toca em outra instituição, que permanece entronizada ao longo de todo o filme: a instituição "família". A excessiva romantização e idealização do seio familiar comprova uma das maiores características do filme, que é seu excessivo didatismo e romantismo. A inserção de outros personagens (a faxineira, o mendigo, a professora que fala sobre o racismo e os escravos) entra no filme quase como um corpo estranho, uma espécie de apêndice, sem organicidade, quase como uma pílula educativa, reforçando sua intenção didática. Didatismo que fica mais gritante pelas opções de encenação: luz, figurino, música, que possuem sempre uma função de esclarecer, tornar claro, reforçar aquilo que já se apresenta pelo roteiro, gesto dos personagens, etc.

Ainda que o gesto criador da menina protagonista crie uma espécie de abalo na normatividade do sistema, me parece que o excessivo romantismo e didatismo de UM FILME DE CINEMA não transformam o espectador, de modo que o filme permanece numa zona de conforto ao abordar determinados temas. É um filme singelo, bem costurado, que fornece um saudável entremeio em se tratando da filmografia desse diretor. Mas seu deslocamento em relação ao típico olhar para a Mostra Aurora me parece mais uma provocação do que de fato uma proposição de algo potente para o cinema brasileiro de hoje. Talvez em um festival de cinema com outras características esse filme possa ser melhor recebido. Pois, para que possa ser visto, um filme também precisa nascer no local e no momento adequados. E, à primeira vista, não me parece ser o caso.

Quando Thiago subiu ao palco e dedicou seu filme a Andrea Tonacci, permanecemos sem entender, ou ainda quase atônitos. Mais coerente seria que dedicasse a cineastas "órfãos", como o Christensen de O menino e o vento. Ou talvez nem isso, dada a solidão, a tristeza e a melancolia desse filme do Christensen. Talvez seja isso: falta um pouco de silêncio e de tristeza para além desse "palhaço que não consegue mais fazer rir". Alguma zona de penumbra nesse cenário de estúdio excessivamente colorido e iluminado.

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domingo, janeiro 22, 2017

[20a. MOSTRA TIRADENTES] ANTES DO FIM


ANTES DO FIM
de Cristiano Burlan


Como parte da programação de homenagem à Helena Ignez, a Mostra fez uma interessante experiência (não tão nova assim, mas nova em se tratando de Tiradentes): exibir um filme "work in progress", uma obra ainda em processo. Nada mais contemporâneo que abrir e discutir o processo de uma obra-em-processo. Sim, porque ANTES DO FIM, como alguns outros trabalhos do incansável Cristiano Burlan, é um filme de processo, ou, como o próprio diretor frisou, um filme sem orçamento e sem roteiro. Mas se o que foi mostrado na tela de Tiradentes não é o filme, e sim parte de seu processo, ainda em construção, este texto (este que escrevo) não pode ser uma crítica. Ele então é o quê? Não sei bem. Ele é então uma breve reflexão sobre a possibilidade de visionamento dessas imagens e sons que passam a formar "um filme", no momento em que são apresentados para um público (diga-se de passagem, que lotou a sessão).


"Sem orçamento e sem roteiro", ou seja, típico "filme-de-garagem", ANTES DO FIM, baseia-se então em um encontro: entre Helena Ignez e Jean-Claude Bernardet, ou ainda, é claro, entre Burlan e os dois "atores", ou entre a câmera e ambos. Ao vê-los em tela, não há como não nos emocionar com a grandeza desses dois grandes ícones de um "cinema de pensamento" ou de um "cinema de invenção" no Brasil. Pois Helena e Bernardet não são apenas dois "atores" mas são atores-criadores de um modo de ser no cinema brasileiro, que conjuga ação e reflexão. Ou ação e reação, conforme os termos propostos pela própria mostra. Daí nada mais coerente que mostrá-los "em campo aberto", sem um roteiro ou dispositivo rígido que os aprisione. Pois tudo o que está em jogo em ANTES DO FIM é a liberdade, sua própria possibilidade de existência.

Mas acontece que o título claramente nos joga para um outro lugar, o da morte ou do fim. O da inevitabilidade da finitude das coisas. O filme propõe um arremedo de narrativa, ligado ao suicídio dos personagens. A proximidade da morte está presente no próprio corpo desses atores, ambos com quase oitenta anos. O modo como Burlan trabalha os rostos e corpos dos atores enfatizando essa passagem de tempo é um dos mais fortes motores da dramaturgia, que surge muito mais como um ensaio performático, ou um exercício do processo de encontrar um personagem do que propriamente uma narrativa de causa-e-efeito e de personagens que se estruturam em motivações psicológicas.

Se a morte está presente o tempo inteiro em ANTES DO FIM, me parece que o suicídio ou o fim foi um ponto de partida que foi logo subvertido para se chegar a um outro lugar. Pois a palavra chave me parece ser o "antes". Ou seja, ainda permanecemos, ainda resistimos, ainda existimos. Curiosamente, ANTES DO FIM - nesse processo inacabado que é próprio da natureza da vida - é um filme sobre o que resiste, ainda mais diante do cenário tenebroso que vivemos. Um filme político que mostra como esses dois grandes "monstros" permanecem. A leveza de ANTES DO FIM diante de um cenário de agonia é sua declaração de amor. Talvez um pouco ingênua, talvez sem tanto desenvolvimento quanto às suas possibilidades diante desses dois grandes seres, mas que, antes de tudo, me tocam profundamente, pois sinalizam para um gesto do autor diante do momento que vivemos hoje, no cinema brasileiro e no mundo.

Se há filmes que propõem um "jogo de xadrez" com a morte, me parece que ANTES DO FIM (se é um filme, mas não deixa de sê-lo)  é uma dança (não uma valsa, mas uma dança contemporânea) com a vida e a morte. Um filme em processo de ser, e que enquanto é (na sua breve impermanência), resiste. Nada mais justo e belo que ele seja exibido exatamente assim como está.

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