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segunda-feira, maio 22, 2017

MFL 2017 - Diário da greve


DIÁRIO DA GREVE
ou a autoperformance da "geração perdida entre a paródia e o pastiche"



Em 1998, Guilherme Sarmiento realizava seu primeiro filme de longa-metragem, "Conceição: autor bom é autor morto". Esse filme foi realizado como uma experiência coletiva entre alunos do curso de cinema da Universidade Federal Fluminense, como o trabalho de final de curso. Ali, uma geração do cinema independente carioca expunha, com muita irreverência e humor, uma certa visão do cinema local.

Quase vinte anos depois, Sarmiento volta com DIÁRIO DA GREVE, um filme com algumas aproximações com CONCEIÇÃO, mas também com diversas diferenças. A maior delas é o tempo, esses quase vinte anos depois. O país e o cinema brasileiro mudaram muito nesse período.

CONCEIÇÃO é o primeiro longa-metragem universitário no Brasil. Filmado em 1998, o filme demorou quase cinco anos para ser finalizado e mais outros cinco anos aguardando um apoio para finalização, para que fosse feito a ampliação de 16mm (suporte de captação) para o 35mm, que na época era a única bitola possível para que um longa fosse exibido numa sala de cinema. Era um esforço para que a "geração universitária" saísse do "gueto" do curta-metragem e entrasse num "cinema perto de você". E isso só era possível em 35mm. Assim, apenas em 2007, quase dez anos depois, o filme começou a ser exibido em mostras e festivais no Brasil.

Essa geração, formada por figuras como André Sampaio, Daniel Caetano, Samantha Ribeiro, Marcio Menezes, Patrícia Barbara, Cynthia Sims, Michelle Morgan, entre outros, entrou no curso de cinema no início dos anos noventa, quando parecia não haver esperanças para o cinema no Brasil. Fazer um filme era quase uma atividade heroica. Quando eles começaram a rodar CONCEIÇÃO, as perspectivas eram outras: fazer cinema, após a "retomada", parecia ser possível. Mas as leis de incentivo, os editais públicos, ainda faziam aquele sonho de realização ser algo distante. Distante, mas já se tornava algo possível.

Como dizia, DIÁRIO DA GREVE marca essa distância de quase vinte anos do Brasil e do cinema brasileiro. Hoje, o país vive enorme crise, em que o binarismo entre "esquerda" e "direita" não mais responde às questões éticas do nosso dia a dia. Ainda, o cinema brasileiro é outro. O "cinema de garagem" brasileiro desponta, toda uma geração passa a ter uma oportunidade de realizar o seu longa-metragem, mas ao mesmo tempo correndo o risco de ser absorvida ou esmagada seja pelo "mercado de shopping" seja pelo "mercado de arte".
DIÁRIO DA GREVE é então um filme extremamente arriscado que coloca sob uma perspectiva crítica esse abismo, é um filme sobre a possibilidade de ser artista no Brasil de hoje.

CONCEIÇÃO já era um filme de garagem. Mas, com o digital e com as transformações econômicas e sociais do país, a garagem até que aumentou, mas se transformou.DIÁRIO DA GREVE certamente não tem nenhum parentesco com DIAS DE GREVE, de Adirley Queirós.

Outra coisa importante mudou entre CONCEIÇÃO e DIÁRIO DE GREVE, nesses quase vinte anos: o próprio Sarmiento. Se em CONCEIÇÃO ele era um estudante de cinema, agora em DIÁRIO DE GREVE ele é..... professor de um curso de cinema.

Começo assim por esse preâmbulo para pensar sobre a singularidade desse filme, pois DIÁRIO DA GREVE fala sobre o trabalho, o cinema e a universidade.

* * *

DIÁRIO DA GREVE tem uma premissa bastante clara. A universidade em que Guilherme Sarmiento trabalha como professor do curso de cinema (a Universidade Federal do Recôncavo Baiano - UFRB) entrou em greve em 2016, assim como a maior parte das universidades do país. Guilherme então se propõe a fazer um filme sobre suas atividades durante o período de greve. Sua base é o "cinema de garagem": um típico filme contemporâneo, que incorpora as ideias do diário e da autorrepresentação. Vemos o próprio diretor como personagem de seu filme, reencenando sua própria vida. No entanto, não se trata diretamente de um documentário sobre seu cotidiano, mas de uma autoperformance, ou ainda, de uma representação (um filme de ficção) nitidamente caricato sobre seu dia a dia.

Sarmiento promove, assim, quase uma paródia de um "filme de garagem". Seu instrumento é o humor e a autocrítica. Desse modo, com um misto de ingenuidade e num tom caricato que intencionalmente dialoga quase com o patético, Sarmiento faz um filme de tom difícil, que promove uma reflexão crítica sobre os rumos políticos do nosso país, sobre o papel da universidade, sobre o "cinema livre" brasileiro e sobre o papel do artista nesse cenário.

O tom de humor/crítica/paródia deve ser observado, pois DIÁRIO DE GREVE não é DIÁRIOS, de David Perlov. Perlov, assim como Sarmiento, também se retira em casa, por não possuir autorização do instituto de cinema israelense para filmar. Como ele não pode exercer o seu ofício, resta a ele dar aulas e ficar em casa. Ele permanece filmando da forma como é possível, optando pelo diário como cinema possível, seja como um exercício do olhar seja como ato de desespero para manter-se são e vivo.

Não deixam de ser essas as intenções últimas de Sarmiento, me parece. Filmar como um ato de resistência, diante da impossibilidade de filmar o que se quer e de dar aulas. O que ele então pode fazer? O filme de Sarmiento é então sobre a impotência (sobre o fracasso) do artista, ou pelo menos, sua própria impotência diante da situação.

Mas a diferença de tom entre os dois filmes é nítida. Perlov possui uma relação quase sacralizada com o cinema, denotando sua frustração e sua depressão ao não poder continuar filmando. Em DIÁRIOS DA GREVE, o tom é o da farsa e da ironia. O humor potencializa a reflexão crítica a que o filme se propõe, colocando um tom aparentamente mais leve mas no fundo mais cáustico.

Durante a greve, Sarmiento não vai às ruas, não ocupa a universidade, pois o realizador não se engaja em nenhum movimento político estritamente organizado. Ele permanece em casa (DIÁRIO DA GREVE é um filme caseiro) mas resolve fazer um filme. O filme é um filme de ficção em que reencena em tom de farsa (uma caricatura) o seu próprio cotidiano de grevista.

Sarmiento diz frontalmente frases que infelizmente são a mais pura verdade. "A greve está enchendo o saco, já. São três meses. Nenhum posicionamento do governo. Na verdade, estão cagando pra gente". Em outra delas, a narração diz "Ao fim da reunião na universidade, senti uma profunda tristeza. A greve existia, era real. Mas, ao mesmo tempo, tornava nós, professores, cada dia mais invisíveis conforme insistíamos nela. Era como se o tempo do protesto fosse apagando nossa existência. E, de quebra, a existência dos alunos, a existência da UFRB e da cidade de Cachoeira." Ao mesmo tempo, Sarmiento encena uma situação em que um vizinho (não sabemos quem é) o ameaça, dizendo que ele é "petralha" e que "deve ir para Cuba".

O posicionamento de Sarmiento se afasta dos padrões normativos propostos tanto pela "direita" quando pela "esquerda" brasileira nos dias de hoje, e, sem identificação com nenhuma das partes, o filme claramente assume sua autocrítica, e Sarmiento aparece quase como um pateta que não encontra nenhuma solução. O filme não oferece nenhuma resposta, e a própria realização do filme não oferece nenhum caminho positivo para romper o grave problema.

Querendo aprender a fazer "um filme de garagem", Sarmiento então vai ironizar os "manuais" do "cinema garageiro". Primeiro, ele vai à garagem do seu prédio para tomar inspiração (garagem literalmente, o lugar onde se guardam carros...rs). Segundo, passa a compor um jogo irônico com três "palavras-chave" do "cinema garageiro": cotidiano, afeto e corpo. A narração apresenta frases do tipo: "um garageiro que se preze tem ao redor de si uma corrente de amigos, um círculo de iguais que transformará a realização do filme em uma manifestação de amor e solidariedade. Sem a brodagem, não existe garagem. " Em outro momento, ele diz: "Filme de garagem é coisa de grunge. Sou filho do rock balada de Brasília. Geração perdida entre a paródia e o pastiche."

A fragilidade com que Sarmiento se lança a esse filme é assustadora e corajosa, em especial em se tratando de um "professor-doutor". Em sua ironia, Sarmiento oferece nitidamente um contraponto à postura de grande parte dos acadêmicos professores universitários, colocando-se claramente ao lado da dúvida em vez do lado do saber e das instituições. Fragilizado, Sarmiento trancafia-se em casa de forma solitária, não romantizando o seu dia a dia, mas expondo sua intimidade de forma ingênua. Coloca-se sob o risco de ser acusado não somente de "direita" (de "alienado" ou "despolitizado") mas também como se expõe de forma levemente infantilizada, desnorteada, sem perspectivas.

A Universidade, a política partidária, a família, o cinema, as instituições todas não oferecem qualquer resposta à tarefa lúdica, infantil e ingênua desse realizador que quer simplesmente se manter vivo.

Talvez haja um leve cinismo por trás de todo esse teatro da realidade, um filme que faz uma piada sobre a sua própria forma de ser. DIÁRIO DA GREVE, em seu humor niilista, não quer ser um modelo para nada. Filme-ilha, totalmente deslocado de tudo o que está sendo feito no cinema brasileiro de hoje, usa alguns artifícios do "cinema de garagem" para, de forma extremamente radical, reforçar seu caráter de isolamento e de independência. Sua aparente leveza e despretensão não mascaram o seu espanto diante do abismo em que vivemos. A ironia não esconde a mais clara possibilidade de leitura: DIÁRIO DA GREVE é sobre o fracasso de uma geração de intelectuais que até querem fazer a revolução mas não conseguem sair de casa.


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